Fabricantes lançam novos modelos de preservativos femininos

10/03/2014 15:38 Saúde

O preservativo feminino fracassou quando foi lançado há 20 anos, mas nunca desapareceu do mercado e agora uma nova leva de empresas está a tentar preencher esse vazio com novos produtos. Será a retomada desse tipo de preservativo?

Há duas décadas, a americana Mary Ann Leeper lembra-se com um certo desconforto das piadas feitas sobre o produto. «Eu acreditava demais no preservativo feminino», diz ela. «Pensava que as mulheres queriam algo com o qual pudessem cuidar de si mesmas. Nós éramos ingénuas - e eu incluo-me nesse grupo.»

Naquela época, Leeper era presidente da Chartex, a empresa que fabricava a FC1, a primeira geração de preservativos femininos feitos de poliuretano.
Antes do lançamento do produto, havia uma atmosfera de curiosidade a envolver o produto, mas aqueles responsáveis pela sua divulgação subestimaram a reacção dos consumidores americanos e europeus.

Leeper nunca se esqueceu de um artigo negativo publicado na ocasião por uma influente revista feminina dos Estados Unidos.

«O artigo ganhou grandes proporções», conta. «Foi um choque para mim, para dizer a verdade. Por que fazer piada sobre um produto que ajudaria as mulheres a cuidar da sua saúde, que as protegeria de doenças sexualmente transmissíveis e evitaria gravidezes indesejadas?», questiona.

O formato do FC1, no entanto, não foi bem acolhido pelas mulheres, o seu público-alvo. Além disso, eram constantes as críticas de que o preservativo fazia muito barulho durante o sexo.
A sucessora da Chartex, a Female Health Company, pensou em cessar a produção do produto, mas, em vez disso, lançou uma campanha para educar consumidores sobre o preservativo.

Então, num dia de 1995, Leeper recebeu um telefonema de uma mulher chamada Daisy, então responsável pelo programa de prevenção da Sida no Zimbábue.

«Ela disse: Eu tenho uma petição aqui na minha mesa assinada por 30 mil mulheres a pedir para importamos o preservativo feminino», recorda Leeper.
Era o início de uma série de parcerias que levou o contraceptivo a diferentes regiões do mundo em desenvolvimento.

A sucessora da FC1, a FC2 - feita de borracha nitrílica - teve maior sucesso no Ocidente.

Actualmente, o produto está disponível em 138 países. As vendas mais do que duplicaram desde 2007, e a Female Health Company registou o primeiro lucro em oito anos.

A vasta maioria das vendas destina-se a quatro clientes - a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês), a ONU, o Brasil e a África do Sul.

Tanto organizações humanitárias como autoridades de saúde pública sustentam que o preservativo dá maior autonomia à mulher durante a relação sexual.
Os preservativos femininos também têm as suas vantagens. Podem ser colocadas antes do sexo e não precisam de ser removidos imediatamente ao fim da relação.
Para mulheres, esse tipo de preservativo também oferece melhor protecção para doenças sexualmente transmissíveis, uma vez que a vulva é parcialmente coberta pelo anel externo.

A reacção dos consumidores também foi mais positiva.
Uma pesquisa feita em 2011 mostrou que 86% das mulheres afirmaram estar interessadas em usar o preservativo novamente e 95% disseram que o recomendariam às suas amigas.

«Muitas pessoas dizem que os preservativos femininos aumentam o prazer sexual», diz Saskia Husken, da Programa Conjunto de Acesso Universal à Camisinha Feminina (UAFC, na sigla em inglês).
Para os homens, há relatos de que o produto apertaria menos o pénis. Já para as mulheres, o anel externo - que permanece do lado de fora da vagina - seria estimulante.

Em  África, a distribuição gratuita do contraceptivo em postos de saúde criou uma tendência de moda inesperada.
Muitas mulheres removeram o anel flexível do preservativo e passaram a usá-lo como pulseira. «Se está solteira, usa a pulseira», brinca Marion Stevens, da Wish Associates.

«Se estiver, por outro lado, num relacionamento sério, a sua pulseira terá uma aparência mais velha», acrescenta ela.
Meyiwa Ede, da Sociedade da Saúde da Família na Nigéria, afirma que, enquanto os homens ficam mais empolgados com a possibilidade de fazer sexo sem usar «um preservativo tradicional», as mulheres ainda se mostram receosas de usar o produto.

A equipa liderada por Ede usa um manequim para mostrar como o preservativo feminino deve ser colocado. Ela compara a tarefa a usar um novo telefone - no início, parece impossível, mas, com o tempo, a utilizadora habitua-se.

Nos países desenvolvidos, há, no entanto, um estigma ainda a ser superado.

«Eu acho que o problema começa pela embalagem – os preservativos femininos não vem enroladas como os masculinos em pacotes tão pequenos», diz Mags Beksinka, da Universidade de Witwatersrand na África do Sul. «Na verdade, ambos os preservativos são do mesmo tamanho. Se os medir lado a lado, não são tão diferentes entre si», explica.

Beksinska é autora de uma pesquisa recentemente publicada pela revista científica Lancet sobre três modelos diferentes:

A Woman's Condom já se encontra disponível na China e chegará em breve à África do Sul, fruto de um projecto de 17 anos da ONG Path - especializada em inovação da saúde. Esse preservativo já foi testado em 50 diferentes versões. Fora da embalagem, é menor do que a FC2. Parece um tampão íntimo, com grande parte do contraceptivo reunido numa cápsula de um tipo de polímero arredonda que, em contacto com a mucosa vaginal, dissolve-se.

A partir desse momento, o preservativo expande-se e pequenas espumas ajudam a mantê-la no lugar certo para a relação sexual. Já o «Cupido» está disponível na Índia, África do Sul e Brasil (através da distribuidora Prudence). Tem essência de baunilha e vem nas cores transparente e rosa. Trata-se de único modelo, fora a FC2, da Female Health Company, a ter ganhado o aval da Organização Mundial da Saúde (OMS) para ser vendido para o sector público. Uma versão menor voltada para o mercado asiático já está em fase de testes.

Por fim, a VA Wow, como o Cupido, contém uma esponja que ajuda as utilizadoras a inserir o preservativo dentro da vagina e evitar que este escorregue durante o sexo. O estudo, que mostrou que todos os três tipos não são menos confiáveis do que a FC2, aumenta as probabilidades de que o preservativo feminino ganhe maior aceitação mundial.

Outros formatos radicalmente redesenhados de preservativos femininos deverão chegar aos postos de saúde e às prateleiras das farmácias em breve.
O Air Condom, à venda na Colômbia, vem com uma pequena bolsa de ar para ajudar a colocação na vagina.

A Panty Condom, feita pelo mesmo fabricante colombiano, a Innova Quality, vem embalada com uma cueca que ajuda a manter o contraceptivo no lugar certo. O produto, no entanto, ainda não possui um distribuidor.

Enquanto isso, o preservativo conhecida como Origami deve ser lançada no mercado americano daqui a um ano.
O seu inventor, Danny Resnic, que começou a trabalhar no sector depois de contrair Sida por causa de um preservativo defeituoso em 1993, levou em conta as inúmeras piadas feitas com a FC1 ao desenvolver o seu produto.

«Há uma razão para a qual o preservativo feminino parece uma bolsa de plástico - porque ele é, no fim das contas, uma bolsa de plástico», diz ele.
O seu preservativo, por outro lado, é ovalado, o que, segundo ele, espelha a anatomia do aparelho genital feminino.

O produto será vendido como uma cápsula em forma de teta e uma vez inserido no interior da vagina se expande como «o fole de um acordeão». O anel externo é desenhado para se acomodar sobre os grandes lábios, em vez de permanecer solto como nos modelos antigos.

O preservativo Origami é feito de silicone, o que, segundo Resnic, permite o seu reuso, uma vez que pode ser lavado em água corrente

Fonte: Diário Digital

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